O sonho de Fantasia Urbana…

Fantasia Urbana é um género  literário extremamente popular. Abram a página duma das editoras nacionais, uma qualquer, e provavelmente metade do seu top de vendas é Fantasia Urbana. Contudo, como em tudo, popular não significa quantidade. Para acentar o ponto, basta referir que a trilogia de quatro livros Twilight é a Fantasia Urbana com mais sucesso da última década.  Deixo esse facto assentar e falar sobre a face que o género apresenta.

Apesar de popular, o género perde muito interesse entre aqueles que começam a notar um padrão – e não é isso que eles procuram num livro. Não ajuda nada que 99% da Fantasia Urbana são fantasias masturbatórias de quarentonas, essencialmente livros de Arlequim um pouco mais fantasiosos. Com protagonistas tão fracas e um dimensionais que parecem de propósito para serem “self-inserts” do leitor  – como muitas vezes são das autoras. E isto quando não são os casos mais extremos de Mary Sues.

Normalmente isso não me afectaria – seria apenas um género a evitar. No entanto, há poucos géneros tão ricos em potencial. Quando não são pornografia impressa, surgem casos excelentes que revelam as histórias fantásticas que se podem contar. Neil Gaiman, Alan Moore, Rick Riordan, China Miéville ,Sergei Lukyanenko são apenas alguns dos melhores escritores de Fantasia Urbana, verdadeiros oásis num panorama negro.

Divulgar e buscar esses autores é fulcral para salvar o género e torná-lo em mais do que auxiliar masturbatório. Encontrar novos autores é também crucial – um bom investimento. No entanto, novos autores possuem dois grandes desafios – primeiro, ser notado para além da turva lama do género e segundo, ter realmente qualidade. O panorama é tão mau que até cobre brilha como ouro.

Mas vamos lá sacar das peneiras.

Eu sei que não se deve julgar um livro pela capa…

… mas serei o único que se sente desconfortável com a capa do “Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas”?

Antes de mais nada, quero deixar bem claro que tenho todo o respeito pelos ilustradores e todos os envolvidos na selecção e composição do layout. É um trabalho duro, que requer uma combinação de conhecimentos de design, bom gosto, sensibilidade para composições e a capacidade de imprimir algum sentido de marketing. É um mundo sobre o qual eu conheço apenas sombras. Por isso, por favor, não entendam isto como uma farpa a pessoal trabalhador e dedicado. Não, pode não ser o mais construtivo dos comentários, mas é apenas um desabafo sobre os sítios “errados” onde esta capa me toca.

O layout é simples, o que me agrada. Tendo a ser muito  estóico nos meus gostos. O problema é que o layout é um bocado saturado de texto. Contudo, essa é uma tendência que se mantém nas edições estrangeiras. No entanto, do ponto de vista de Marketing, não seria mais interessannte colocar enfâse sobre outros grandes nomes da literatura presentes? Ao meu olho destreinado, a omissão de Moorcock é quase criminosa. Talvez duas colunas com os autores internacionais? Fazia uma ponte com outras obras publicadas pela Saída de Emergência, um enlace “bonito” – e em termos de mercado, sugestivo. De novo, isto é a opinião de um leigo em Marketing. Espero que ninguém tome a mal e que meçam as minhas palavras com um saleiro inteiro.

Outro problema que vejo com a capa tem a ver com outras publicações da Saída de Emergência e a selecção da ilustração.  A meu ver, esta é uma publicação mais destinada a quem já está imerso até aos joelhos no fantástico e/ou na ficção científica. No panorama nacional actual, é impossível acompanhar bem esses dois grupos literários sem estar a par de outras publicações da Saída de Emergência. Ora, eu imagino que um leitor que está a par das antologias Lovecraftianas da Saida de Emergência, sem ter qualquer outra informação sobre o Almanaque, possa ter uma ideia errada sobre o conteúdo do livro. Ao olhar para a ilustração e conhecendo a “tara” Lovecraftiana da editora, a primeira noção pode ser de nova antologia Lovecraftiana ou algo na mesma estirpo, como doenças de Innsmouth. CLARO, livros não se julgam por capas, mas primeiras impressões podem fazer ou matar uma relação.

*Suspiro*

Podem parecer picuinhices, eu sei. São pontos que me desagradam e dúvido que tenham grande valor  construtivo. Todos os envolvidos fizeram um bom trabalho, mas numa direcção que eu não esperava. Com base nas capas internacionais e na antologia Pulp da mesma editora, estava a espera de algo que evocasse o espírito do séc. XX, que cheirasse a Pulp, cheio de optimismo e descoberta, com promessa de explorar uma época que nunca foi. Ou que desse uma promessa médica, de falsa seriedade e carregada de ironia. Ou que o toque Português contaminasse a capa.  Acho que aqui o problema meu: criei estas visões e possíveis direcções criativas. Estava a espera delas, tanto pelo conteúdo como pelas outras capas internacionais.

E, de novo, com todo o respeito aos envolvidos: acho que nenhum desses pontos é transmitido por uma serpente de fraque.

É só que gosto mais de qualquer uma destas.

Gostos. Desculpem lá. O que se diz sobre gregos e troianos?

De volta aos audiobooks

Este Domingo, numa série televisiva de muito impacto na dita pop culture – ok, pronto, foi no Doctor Who, mas não temam quem segue a série que não vou fazer nenhum spoiler,  – o cenário era um ano 2020 que não é muito diferente desta década em que vivemos. Entre os bocadinhos de ambiente e cenário, houve algo que me assaltou imediatamente os sentidos e o raciocínio.

Uma disseminação absoluta de audiobooks sobre os livros fisicamente impressos – existe algo como metaforicamente impresso? –   que aparentemente andam de mãos dadas com dificuldades de aprendizagem.

Ora, a primeira associação que fez o meu cérebro, segundo regras de juízos e Lógica é uma de Causa Efeito. A geração de 2020 sofria de problemas de leitura, dislexia e dificuldades de aprendizagem. Simples, não? Um tema recorrente em Ficção Especulativa, Ficção Científica e outros meios. Um temor recente, um assunto que me deixa muito apreensivo, como os leitores regulares já sabem. Estes medos são extremamente antigos, é conveniente lembrar que até Isaac Assimov tinha uma predilecção por esta temática, sobre o efeito da tecnologia sobre os livros e como a eliminação do meio escrito  afectava os indivíduos. Contudo, numa década em que tudo o que é obra significativa foi convertido a audiobook e o mercado impresso é dominado por “anti-Livros” como as sagas Twilight e Eragon, é um temor constante em qualquer pessoa com leves inclinações literárias.

Mas Doctor Who tirou-me os pés do tapete. Inverteu-me a Causa e Efeito. E porque não o contrário? Os audiobook servirem de ferramenta de apoio para ensinar crianças com problemas?  Apenas mais uma ferramenta para a transmissão e acumular do conhecimento humano?

E a mensagem mais optimista – que é sempre bom, principalmente num programa desenhado para traumatizar crianças  – que apesar de todas as limitações, com as ferramentas certas, a inteligência e criatividade humanas podem ser libertadas.

E em papel ou áudio, é isso que interessa, não?

Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas II

Depois do um trio de e-mails perguntando mais sobre o livro, partilho convosco o que sei. Ainda não tive com o livro nas mãos.  O que se segue é a integridado do press-release a que tive acesso. Passo a citar:

“Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas – Vários Autores

Publicado pela primeira vez em 1915, durante a I Grande Guerra, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas foi durante trinta anos difundido a médicos de todo o mundo em folhas de carbono ou fotocópias. O trabalho do Dr. Lambshead inspirou génios clínicos de todo o mundo, e Portugal não foi excepção, encontrando no Dr. Anófeles Calamar Trindade e no seu Compêndio Médico de Doenças

Notáveis e Invulgares uma referência incontornável. Por ocasião da primeira edição portuguesa do Almanaque, foi o próprio Dr. Lambshead, agora com mais de cem anos de idade, que decidiu confiar a edição às mãos capazes, se bem que ainda jovens, do Dr. João Seixas. É a ele que coube a tarefa de reunir novas descobertas propostas por um formidável leque de eminentes especialistas médicos portugueses, seguindo na peugada do grande pioneiro clínico Dr. Anófeles Calamar Trindade. Pela primeira vez, as suas descobertas são apresentadas num volume único e insubstituível, onde se juntam ao trabalho de colegas norte-americanos e britânicos de grande reputação como o Dr. Alan Moore, Dr. Neil Gaiman, Dr. Jeff Vandermeer ou o Dr. China Miéville, entre muitos outros.

Entre outros…

Vencedor de múltiplos prémios internacionais, Alan Moore é universalmente considerado o melhor escritor de graphic novels de sempre. Notabilizando-se desde cedo pelo seu trabalho em Swamp Thing, Watchmen e Miracleman, aventurou-se depois em outros géneros com sucessos como Lost Girls, A Small Killing,

Big Numbers, e três que foram adaptados ao cinema: From Hell, The League of Extraordinary Gentleman e V for Vendetta.

Entre os seus muitos prémios estão o Hugo, o Bram Stoker e o Eisner Award.

A Voz do Fogo é o seu primeiro romance e passa-se em Northampton, Inglaterra, onde vive desde que nasceu.

David Soares é autor dos romances Lisboa Triunfante, uma história mágica sobre a capital portuguesa, e A Conspiração dos Antepassados, sobre o encontro do poeta Fernando Pessoa com o mago inglês Aleister Crowley. Publicou três livros de contos e colabora, regularmente, em diversas antologias literárias, relacionadas com o género Fantástico. Na sua carreira como autor de banda desenhada foi premiado com dois troféus para Melhor Argumentista Nacional e uma bolsa de criação literária, atribuída pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e
pelo Ministério da Cultura. Algumas das suas obras de banda desenhada estão publicadas em França e em Espanha.

Também trabalha como tradutor, tendo assegurado a tradução de obras de autores como Alan Moore, Jack Dann e Philip K. Dick. Escreve quase todos os dias no weblog: cadernosdedaath.blogspot.com.

Michael Moorcock é autor de quase 100 livros. Vencedor de variadíssimos prémios literários, cronista regular do The Daily Telegraph, The Guardian e The Observer, crítico respeitado e músico de rock inspirado. Como editor da controversa revista New Worlds, deu voz a autores que mais tarde receberam prémios tão prestigiados como o Booker Prize. Senhor de uma prosa poderosa e uma imaginação corrosiva, Moorcock é o mais importante sucessor dos grandes mestres do fantástico e, actualmente, a maior influência dentro do género. Nascido em Londres em 1939, divide o seu tempo entre os EUA e a Europa.

Género: Literatura Fantástica

Palavras-Chave: Doenças excêntricas e desacreditadas, almanaque de medicina

Tradutor: Vítor Morta e João Seixas

Formato: 16 x 23 cm

Páginas: 464

Tiragem: 1500

PVP: 18,80 €

Data de Lançamento: 21 de Maio de 2010″

Espero que tenha tirado as dúvidas que me enviaram. Mais não posso esclarecer, infelizmente.

Na editora: http://www.saidadeemergencia.com/index.php?page=Books.BookView&book_id=568&genre=17

Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas

Deixem-me contar-vos um pouco sobre o “Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas”, a versão nacional de The Thackery T. Lambshead Pocket Guide to Eccentric and Discredited Diseases, publicada no passado dia 21 de Maio pela editora Saída de Emergência.  O que é isto, perguntam-me vocês?

O guia original foi algo construído como uma brincadeira, um jogo, um exercício mental  entre autores do fantástico e da ficção científica. Uma maneira de se expressarem e espremerem criatividade, divertindo-se a criar doenças. Mas se os autores se divertiram, também o fizeram os leitores, o guia tornando-se popular. Das brincadeiras e devaneios, com nomes como Alan Moore, Neil Gaiman, China Mieville, Michael Moorcock , Kage Baker, Mark Roberts, Stepan Chapman vestindo a bata branca, nasceu este guia.

Na sua tradição de adaptar antologias internacionais a uma fatia da realidade portuguesa, a Saída de Emergência fez mais do que limitar-se a traduzir estes escritores. Num projecto encabeçado por João Seixas, procurou-se reunir doenças criadas por vários autores portugueses, para serem incluídos nesta nova incarnação do Almanaque, encabeçada por David Soares.

E porque falo eu disto?

Puxar a brasa à minha sardinha, claro. Apesar da minha apreensão, fui desafiado a investir. Eu fui um dos autores incluídos, sobre o pseudónimo de um pseudónimo de Dr. Félix Augusto. A doença é o Pé Canhoto e é um mal que ainda tem muito que se diga…

De volta a Casa

O meu tempo na blogosfera é bastante limitado. Comecei um blog para publicitar os meus projectos, mas aquilo não deu em nada. Apesar do esforço e apoio da Edita-Me, estando a trabalhar no estrangeiro e com a tese para acabar, é quase impossível manter alguma coisa a andar. Com o Verão no horizonte e os prazos apertados, algum escapismo sabe bem. Não podendo dedicar-me à escrita, planeio o regresso à blogosfera. E porque não voltar a casa?

Perdão a todos. Estou de volta. É Imperativo continuar.

Festival da canção? Da RTP?

Eu normalmente não ligo muito a Festivais da Canção, o que é um eufemismo. Eu não ligo nada a Festivais da Canção. Infelizmente, ontem era a única coisa minimamente aceitável a passar na televisão nacional – o que já por si diz muito do estado actual da televisão nacional. Estou a olhar para si, SIC. Não mudem de director de programas, não.

Mas – como sempre – divago.

Ora, este Festival  da Canção… Entre várias coisas conteve… Pura Gasolina para Pesadelos (de elevadas octanas…) com a Nucha.

As sempre alegadamente virgens Tayti levam uma música… em Italiano. Se passasse sempre ia dar uns votos à Itália por enganado… É sempre bom ser solidário.

E claro, a imitação de Barack Obama feita pelas mamas da Luciana Abreu.

Mas fora isso, o que mais me estranhou foi uma certo fenónemo. Para protecção dos inocentes, vamos chamar esse fenónemo “Flor-De-Lis”.  Não vou descurar a canção ou o talento do grupo – até porque eu tive o tempo todo distraído por aquilo que a vocalista trazia na cabeça da primeira vez que a música passou – mas isto não é para escolher a melhor canção, mas a mais adequada para ganhar a Eurovisão. Raios, nem sequer é preciso saber cantar, e quem ainda tinha dúvidas disso, a Romana acabou por as tirar.

No entanto, os “Flor-De-Lis” ganharam, não porque o público português assim o quis, não… mas sim por um comité de especialistas. Mais “especialistas”, mais “personalidades”, mais não sei o que lhe querem chamar – mas o único ligado à música era o André Sardet. Isto em dezenas desses “especialistas”.

Ora, tão entendidos era que não concordavam em NADA. Não havia concordância nenhuma nas votações… excepto claro, nos 12 pontos para o “Flor-De-Lis”. Em quase todas as capitais de distrito. 12 pontos. E o pior… quando os “Flor-De-Lis” na Guarda receberam 10 pontos ao invés de 12 chegaram a VAIAR. “Não estão a ganhar por uma vantagem de 52 pontos, só 50! Vamos vaiar!”. Tornou-se extremamente ridículo, principalmente as tentativas crescentemente tristes  as tentativas da Sílvia Alberto para fazer “suspense”… quando já toda a gente sabia onde iam todos os 12 pontos.

Mas pronto. Eles tinham boa música, eram um grupo sólido, com boa música e boa interpretação. Mas como o único verdadeiro especialista musical – André Sardet – foi o único a apontar os critérios, para ganhar a Eurovisão tem que ser algo “folclorico”, “festivaleiro”, com mais presença de palco e energia e um som que fique no ouvido e que seja preciso um martelo pneumático para tirar de lá. Ora, os três candidatos que para bem e para mal representavam isso –  Nucha, Luciana Abreu e Nuno e Fábia – foram escorraçados pelos ditos especialistas.

Depois entrou a votação nacional do público… que com uma esmagadora vantagem deram a vitória à Floribella. Mas devido ao sistema muito mal aplicado de selecção, foi escolhido os “Flor-De-Lis”.

Sim. É esse o ponto.

Ontem FOI escolhido o representante que os portugueses NÃO QUERIAM.
E o representante que a bem ou a mal os portugueses QUERIAM não foi ESCOLHIDO.

Mais ainda: devido ao sistema de valores que escolheram, a Luciana ficou em sétimo. Ou seja, mesmo que não fossem os “Flor-De-Lis” a ganhar, IRIAM SEIS REPRESENTANTES QUE OS PORTUGUESES NÃO ESCOLHERAM antes daquele que os portugueses escolheram.

O cúmulo que me fez ficar muito preocupado com a seriedade da RTP foi os troféus. Em todos os candidatos a representantes, só havia um grupo – sim, os “Flor-De-Lis”. No entanto, apareceram TRÊS TROFÉUS. Ora, um troféu não se faz ali ou na hora. E não é algo que se faça em série. Mas estavam ali TRÊS TROFÉUS prontinhos, já antes de se saber o vencedor.

Ou seja, se ganhasse a Luciana Abreu, era o quê? Um troféu para ela e dois para as mamárias?

Não valem dois troféus na minha opinião...

Não valem dois troféus na minha opinião...