No meio daquele jardim existe uma árvore. E quão bela é a árvore. Verde é, mas cedo muda e nos ilude, moldando-se em cálidos vermelhos, secos castanhos e cascatas de pérolas de puro e branco Inverno.
No meio do meu jardim tenho uma árvore. Podia cortá-la e contar os anéis, mas não preciso de o fazer. Penso que a conheço e penso que nisso penso bem. Eu respiro calmamente à sua sombra mas mesmo nas piores trovoadas receio em tomar refúgio debaixo dela. Por vezes acaricio a sua casca, mas os seus nós causam-me sempre embaraço.
No meio do seu jardim ele tem uma árvore. Com muito cuidado a poda, depressa ocultando os ramos que não considera adequados. Todo o jardim canta em sincronia com a árvore, pintando um calmo e aterrador quadro de submissão e beleza. Mas imersa no meio dele, a árvore continua em silêncio.
No meio da praça, o povo plantou uma árvore. Rodearam-na em festivais de cantoneiros, canteiros habitados por amargas flores, companhia de asfalto e reflexos de vidro. Enfeitaram-na e sobre uma voz comum, declararam que ela ia crescer bem. Que era feliz. Ignorando e esquecendo que a natureza da árvore era a de um salgueiro-chorão.
No meio do bosque, ainda não existe uma árvore. Remexe nas cinzas, buscando uma oportunidade para nascer. Cresce suavemente, serpente vertical que procura aprender com os seus erros. Que busca o sol mesmo com folhas sensíveis demais para os seus raios.
No meio somos a árvore.